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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

OS JOVENS SÓ QUERIAM AMOR: A CONTRACULTURA DOS ANOS 1960


RESUMO: Este artigo propõe uma leitura do musical Across the Universe, que recria o ambiente da segunda metade da década de 1960 nos Estados Unidos. O filme aborda questões como a cultura dominante, a contracultura da época e o universo contestador e revolucionário da juventude, fazendo uma ponte para refletir sobre questões atuais, como as levantadas pelo multiculturalismo.

Palavras chaves: contracultura; juventude; Beatleas

Dirigido por Julia Taymor, produzido pela Sony Pictures e lançado em 2007, Across the Universe é um musical que ambienta o clima dos anos 1960 nos Estados Unidos através do romance do jovem casal Jude e Lucy. Não por acaso o nome dos personagens principais da trama são protagonistas de músicas dos Beatleas. O musical é inteiramente contado através das músicas da banda inglesa de maior sucesso da história. Apesar de o enredo ser limitado a este fator, devemos levar em consideração que os produtores tiveram uma variedade muito grande de músicas para escolher, além de terem dado interpretações de acordo com o ritmo proposto para o filme, que englobou versões diferentes das músicas. São 33 músicas escolhidas com o intuito de contar uma história de amor envolvida pelos crescentes sentimentos de revolta contra a Guerra do Vietnã, o racismo, as desigualdades sociais e o sistema e, ao mesmo tempo, a favor da energia dos jovens e sua rebeldia contra os pais e a moral constituída.
            O filme também narra indiretamente a trajetória dos integrantes dos Beatleas, em uma tentativa de inclúi-los como jovens do seu tempo e fazer emergir essa camada social, apresentando-a como socialmente ativa na época, criativa e questionadora. Sua característica de “abrir a mente” para novas idéias e novas experiências, entre elas o envolvimento com as drogas. Isso não significa que negligencia as características de romance, ingenuidade e conflitos psicológicos que os atingiram.
            Já que a narrativa aborda a trajetória da banda, podemos partir daí. O filme inicia-se com Jude (Jim Sturges) cantando Girl em uma praia de Liverpool, sua terra natal. Ele pede para que o público ouça sua história de amor, sobre “a garota que veio para ficar”. Liverpool, como sabemos, é a cidade natal dos quatro integrantes da banda inglesa Beatleas, John Lennon, Paul MacCartney, Jorge Harrison e Ringo Star. Assim como John Lennon, Jude também havia sido abandonado pelo pai, que engravidou sua mãe durante a Segunda Guerra Mundial e depois partiu para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor, no entanto, sua estória não foi tão traumática, pois Jude contou com o apoio da mãe que o criou sozinha. Devido as circunstâncias, ele teve de ajudar a mãe desde cedo, privando-se dos estudos (seu sonho era fazer Artes, os Beatleas também se envolveram com estudo de artes (Paul MacCartney) e tinham amigos na escola de arte, como o primeiro baterista Pete Best), e empregando-se como operário nas docas. Este ambiente pobre e difícil também fez parte da infância de Ringo Star, onde “Descrevendo sua vizinhança perto das docas, Ringo disse: ‘Há muitas casas no Dingle. Um monte de pessoas em pequenas caixas, todas tentando sair’”[1]. É exatamente este o lugar onde encontramos Jude, um jovem estivador, morando em uma “pequena caixa” com sua mãe, tentando arrumar um jeito de se livrar daquilo. Nas horas de lazer ele leva sua namorada Emily para ouvir rock’n rool em uma caverna; a caverna é uma referência as apresentações dos Beatleas no Cavern Club, durante os anos de 1962 e 1963; o porão tornou-se o foco da música beat em Livepool[2]. Os jovens na caverna são embalados pela música Hold me Tight, ao mesmo tempo, do outro lado do oceano, a jovem adolescente e rica Lucy (Evan Rachel Woods) dança a mesma música com o seu namorado Daniel (Spencer Liff) no seu baile de formatura nos Estados Unidos. Os figurantes dançam todos sincronizados e o par romântico Lucy e Daniel mal chegam a se tocar, revelando jovens inocentes, frutos de uma sociedade “bonitinha”, no seu devido lugar. Dessa forma, a trilha sonora do filme também progride de acordo com a carreira do grupo musical, com um começo romântico, alegre e inocente.[3]
Em seguida, o filme demonstra a rebeldia dos jovens contra os pais e a moral da sociedade de classe média nos EUA, onde protagoniza Max (Joe Anderson) com a música With a Little Help From my Friends[4]. O personagem é um clássico “vida boa” que não quer seguir com a carreira acadêmica “hipócrita” imposta por seus pais, em forma de protesto ele vive a fazer “baderna” com os amigos, usando drogas na faculdade de Princeton; onde encontra Jude à procura do pai (que acabou como zelador da faculdade). A partir daí, Jude é envolvido pelo mundo alegre e desafiador de Max e os dois tornam-se amigos, indo juntos para a casa dos pais de Max na “Ação de Graças”, onde ele conhece Lucy, irmã mais nova de Max. Nesta parte seguem-se típicas cenas de repreensão dos pais que cobram do filho uma atitude sobre o que “ele vai fazer da vida”, afinal precisava de uma ocupação à altura de sua classe na moderna sociedade capitalista competitiva, à qual Max responde, que antes de querer saber o que ele quer fazer da vida, eles deveriam querer saber quem ele é. Exibindo a potencialidade de sua rebeldia ele parte para Nova York junto com Jude em busca de respostas e novas aventuras.
Inicia-se assim a segunda parte, que é embalada pelo período psicodélico dos Beatleas, com muita cor, “viajens” e convite para novas experiências. O uso das drogas aumenta entre os jovens da trama, apesar do filme mostrar explicitamente apenas o uso de maconha, a incrível explosão de criatividade a bordo do ônibus do Dr. Robert (Bono) onde lê-se na traseira “carga insana”, só poderia ser fruto de uma louca viajem proporcionada pelo LSD, em uma alusão às viajens constantes de John Lennon[5]. O figurino, as cores e as luzes do musical nesse momento lembram bastante a estética do álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.
            Além do enfoque principal, que é o movimento a favor da paz e pelo fim da guerra, temperado por sentimentos revolucionários, o filme aborda questões próprias da sociedade contemporânea, como o racismo, representado pelo movimento armado dos Panteras Negras e pelos movimentos pacifistas do líder Martin Luther King. Um ponto de muita emoção do filme é uma cena de violência nos “guetos”, onde muitos negros são mortos pela polícia. No meio de uma confusão muito grande um garotinho negro canta encostado em um carro Let it Be, em seguida a música continua a ser entoada por uma cantora negra de poderosa voz, em estilo gospel.[6] A cena transfere-se para dentro de um “Templo negro”, e os louvores velam o mesmo garoto que a um minuto clamava pela “mãe Maria em um momento de escuridão”. Ao mesmo tempo, na parte nobre da cidade, Lucy e a mãe do jovem patriota Daniel, recebem a notícia de sua morte na Guerra do Vietnã, a partir daí a voz poderosa e apelativa da cantora passa a louvar o funeral das vítimas de duas faces da violência, demonstrando que ela afetava ricos e pobres, negros e brancos. Tal contexto acaba por levantar questionamentos sobre a conduta do governo em continuar levando adiante a segregação racial (não era o país da liberdade?) e uma guerra baseada no direito imperialista de manter a dominação capitalista (ou estadunidense) no mundo[7]. A música revela que “quando as pessoas de coração partido morando no mundo concordarem haverá uma resposta”, ou seja, era preciso amor e união. Os personagens começam uma busca por paz e amor, por novas experiências culturais e novos conhecimentos, por conforto e respostas para suas mentes conturbadas. Lucy e Jo-jo (um guitarrista negro, parente do garoto morto no confronto) embarcam para Nova York.
Retratam-se, também, outras questões da contemporaneidade, que ainda estão em voga, como a violência doméstica e o homossexualismo, através da jovem lésbica Prudence (T. V. Carpio). Uma ginasial, descendentes de orientais, fazendo referência à “raça” dos vietnamitas, começa sua trama com uma versão melancólica de I wanna hold your hand, como forma de expressar seus sentimentos escondidos e não correspondidos por uma colega líder de torcida. Sua estória, apesar de pouco clara, é bastante sugestiva se dada a devida atenção. Frustrada, a jovem acaba lançando-se sozinha numa viajem até Nova York (provavelmente alguma reprovação dos pais a levam a isso, mas o filme deixa subentendido); na nova aventura ela tenta relacionar-se com um homem e acaba sendo espancada por este, retratando a violência contra a mulher, muito presente na sociedade conservadora dos anos 1960, sendo um problema ainda atual. Fugida, ela acaba no apartamento da cantora Sadie, onde se junta a Max, Jude, Lucy e Jo Jo, neste ponto o elenco principal se encontra. Na casa, onde é calorosamente acolhida, Prudence apaixona-se por Sadie e não é correspondida, amargurada por causa da paixão que esconde e enciumada devido ao relacionamento de Sadie com Jo Jo, Prudence se joga novamente na estrada. Ela segue os conselhos dos seus amigos e “sai para brincar no novo dia”, esta passagem é representada pela música Dear, Prudence. Seu novo dia é todo colorido e psicodélico, embalado pela magia imaginativa do circo e da cultura alternativa. Prudence acaba no show do Mr. Kite e encontra lá alguém que corresponde aos seus sentimentos, a contorcionista Rita, terminando assim sua trajetória.
É em Nova York que os seis personagens principais se encontram, eles serão acolhidos na casa da cantora Sadie (Dana Fuchs), uma paródia visível à Janis Joplin. Essa personagem dará abertura para o roteiro abordar a cultura alternativa e o movimento hippie[8], impulsionado por jovens, músicos e artistas. O lema "Paz e Amor" sintetiza bem a postura política dos hippies, que constituíram um movimento em prol dos direitos civis, igualdade e anti-militarismo, ao exemplo da luta de Ghandi e Luther King. Para expor suas reivindicações e se livrar da ideologia capitalista do consumismo e do império da beleza, eles renunciaram ao estilo de vida americano e passaram a viver uma cultura alternativa, fazendo parte importante da contracultura dos anos 60 nos EUA.
Devemos nos lembrar que os Beatleas também participaram desse momento da contracultura, através do envolvimento com as drogas oferecidas por Bob Dylan e as viagens a Índia para consultas espirituais e filosóficas; de George Martin em 1964, para ter aulas de cítara e filosofia, com o guru Ravi Shankar, e em 1967 de todos os Beatleas com o guru Maharishi Mahesh Yogi, para obter crescimento espiritual e meditação transcendetal[9]. Isso quer dizer que os Beatleas e os jovens da contracultura estavam preocupados em conhecer o Oriente, queriam experimentar outros modos de vida, negando a posição imperialista da cultura ocidental; em uma extensão, muitos creditam aos Beatleas e as suas músicas do período, uma contestação à política ocidental capitalista. Esse tipo de afirmativa pode ser constatado no fato de Bob Dylon ter alertado Lennon sobre o poder que as letras das músicas têm, depois disso as letras do grupo começaram a ter um formato mais psicofilosófico[10], e o filme a partir daí ganha um ar mais revolucionário e socialmente engajado.
Em contraposição a isso Sadie e Jo Jo (Martin Luther McCoy), uma parodia de Jimi Handrix, buscam o sucesso. A cantora representa bem a trajetória dos artistas do rock’n roll na época da crescente indústria fonográfica; o embate entre os interesses deles como artistas e as pretensões de transformá-los em produtos de consumo altamente lucráveis. Ela apresentava seus shows em um bar noturno e em um teste para guitarrista Jo Jo entra na banda, na casa, e na vida de Sadie, o romance dos dois será conturbado pelo agente “olheiro” que descobriu Sadie. Em uma passagem pouco clara do filme, a gravadora impõe condições à cantora, entre elas o descarte do guitarrista, os dois acabam brigando em um show, durante a apresentação da música Oh! Darling, e se separam. Uma história bastante típica das bandas dessa época, ou seja, pouca independência quando o assunto é gravar e se lançar no mercado. A decisão acaba por comprometer a qualidade da banda e dos shows, e durante a turnê Sadie se mostra insatisfeita o que a leva a reatar com Jo Jo no final do filme.
Quanto ao sentimento revolucionário da contracultura, a película aborda principalmente o papel dos movimentos sociais, passeatas e discursos a favor do fim da Guerra no Vietnã. O então presidente Lyndon Baynes Johnson, vice do presidente assassinado John Kennedy, levava adiante uma política de sinceridade mínima, escondendo as reais proporções da guerra e sua característica desastrosa quanto à tática militar. O discurso era o do governo patriótico e do capitalismo da liberal democracia estadunidense. Para isso, “a cultura da mídia, assim como os discursos políticos, ajuda a estabelecer a hegemonia de determinados grupos e projetos políticos”[11], exemplo disso é a figura do “Tio Sam”, e a frase de impacto “I want you” (Eu quero você). Tal discurso político foi muito bem apresentado na parte que consideramos a mais brilhante do filme, através da música I want you/ She’s so heavy, acompanhado de uma grande inventividade criativa na performance e no figurino das cenas. O personagem Max, convocado a servir na Guerra, é impelido a se alistar, graças às series de imposições do governo, entre elas, o degredo caso se recusasse a comparecer. Max é puxado para dentro das “garras do Tio Sam” por um exército de soldados de “queixo duro”, representados por rostos de madeira sem qualquer expressão, demonstrando a desumanização do sistema. A partir de então, Max passa por uma bateria de exames teatralizando uma linha de produção, em alusão à industrialização massiva dos países do centro, onde o personagem sai “pronto” em uma esteira já “batendo continência”. Na cena seguinte, os soldados, incluindo Max, marcham sobre o território vietnamita com a estátua da liberdade nas costas, eles são gigantes em relação ao território e destroem as árvores com suas enormes botas, cantando os versos “she’s so heavy”, (ela é tão pesada, tão forte) em uma alusão à destruição que os americanos estavam causando naquele território, apoiados no respaldo ideológico da liberdade democrática ocidental e capitalista (a mais forte).
Na seqüência, Lucy, abalada pela morte de Daniel e pelo medo de perder o irmão para a guerra, acaba se envolvendo com os crescentes movimentos pacifistas no bairro de Greenwich Village. Neste momento ela e Jude já estão juntos e vivem intensamente seu romance, embalando outras canções românticas como If I fell e Something. Enquanto ele faz desenhos para logotipos e cartuns tentando ganhar algum dinheiro, ela trabalha em uma lanchonete e à noite milita no jornal do revolucionário Paco, que os jovens conheceram em uma passeata pela paz, onde ele gritava inflamado: “A imagem da América nunca mais será a da liberdade!”
Os dois jovens apaixonados vão acabar envolvendo-se em brigas ideológicas, pois Jude mostrava-se um tanto apático e confuso em relação à guerra; ele só queria relaxar e criar seus desenhos, enquanto perdia a atenção da sua namorada para Paco e para “a causa”, em um momento do filme ele chega a afirmar: “Eu não tenho uma causa. Esse é o problema”.  Revelando a situação de muitos jovens que não concordavam com a guerra, mas não sabiam que posição ideológica tomar. Na música Strawberry Fields Forever, ele convida Lucy para “ir aos campos de morango e fugir da realidade, fechando os olhos é fácil viver”. Com o desenrolar da música, enquanto ele tentava desenhar um morango como logotipo da gravadora de Sadie, como ele diz “vermelho, suculento e sexy” assim como a juventude; aquele vermelho feliz passa a ser um vermelho de morte e guerra. A televisão,[12] na sala do casal, passa sem parar imagens da Guerra, e nelas aparece Max, com um semblante sombrio e enlouquecido. As imagens são em preto e branco e passam um ar pesado e triste, quando Jude entoa os versos “Mas tudo está errado. Isto é, eu acho que discordo”, revelando a confusão ideológica em que o jovem se encontrava.
Depois da briga, Lucy volta para a “causa” e Jude para o apartamento deles. Percebendo que a perdeu, ele vai até Washington onde havia se marcado uma passeata, em uma alusão ao movimento pacifista nas escadarias do Pentágono, ocorrido em outubro de 1967, quando levantou-se os gritos de protesto “Hey, Hey, LBJ! How many kids did you kill today?” (Ei, Ei, LBJ! - as iniciais de Lyndon Baynes Johnson - quantas crianças você matou hoje?), que se tornou o grito típico dos movimentos na época, no filme, este grito também é retratado. No caminho, dentro do metrô, Jude canta a música que dá título ao filme Across the Universe, revelando que “as palavras deslizam suavemente em um copo de papel [frágil], mas elas também se mexem selvagemente através do universo, as mágoas e as alegrias estão povoando a sua mente” e ele se encontra em um dilema. A música fala do poder revolucionário das palavras e também de sua impotência, dos pensamentos, de iluminação e de abrir a mente para novas idéias e para o amor.
Quando chega ao local da “luta”, muita pancadaria e confusão, entoando a música Helter Skelter, por Sadie, já fazendo sucesso, em outro local. No meio da pancadaria e dos gritos de protestos, Lucy e Paco são pegos pelos policiais, o que leva Jude a se envolver e acabar preso. Acontece que ele era um imigrante ilegal nos EUA e acaba tendo que voltar para Inglaterra, ficando mais longe de Lucy. Neste ínterim Max retorna da Guerra vivo apesar de psicologicamente abalado, em um bar ele entoa o sucesso Hey Jude, incitando o seu amigo a voltar para reconquistar seu amor. De volta aos EUA, todos os personagens se encontram no terraço de um prédio onde Sadie faz um show, em uma clara alusão à última apresentação ao vivo dos Beatleas juntos, no terraço da Apple. Quando Jude canta All you need is love e faz Lucy voltar sua atenção para o terraço, o filme demonstra qual sua principal intenção: despertar o amor, em todos os seus sentidos, pois o personagem leva o público a entender que “não há nada que você possa fazer que não pode ser feito e não há ninguém que você queira salvar que não possa ser salvo, tudo o que precisamos é de amor”. Façamos um parêntese para entender o que é esse amor. Ele deve ser entendido como força motriz capaz de mudar o mundo, nesse sentido, o amor ao qual o filme alude, não se trata do amor romântico em si, mas sim de um amor utópico, que refere-se à fraternidade e que seria partilhado por todos. Fazendo vocal de apoio, Prudence e Sadie persuadem os policiais (novamente em cena, para não deixar de reiterar a característica da repressão pela força do estado), entoando os versos “Love, love, love”, a deixarem o jovem Jude terminar sua canção, e os dois amantes se reencontram para celebrar o amor. O final colorido e feliz embala os créditos finais com a música Lucy in the sky with diamonts.
Por fim, fazendo um balanço geral do filme, podemos entender que ele enfoca o radicalismo dos anos 1960 como forma de reativar a contestação da ideologia hegemônica, para isso a diretora recria o contexto norte americano de lutas e embates ideológicos. A guerra ideológica, naqueles anos, também estava acontecendo no nível do poder constituído, entre liberais e conservadores, depois da morte do presidente liberal John Kennedy até a ascensão do conservador Reagan na década de 1980[13]; o que levou os “donos do poder” a tomar diferentes posições quanto a Guerra do Vietnã, culminando em contradições que permitiram que o povo norte-americano enxergasse a hipocrisia do governo que levava adiante uma guerra cruel e fora de controle, escondidos por trás da bandeira da liberdade, da democracia e da moral puritana e expansionista da nova fronteira.[14] Quando grande parte dos homens brancos e yankees passaram a retornar em sacos fúnebres a situação tornou-se crítica e o poder contestador da população se intensificou; o alvo das contestações não era apenas as condutas concretas dos políticos, mas também, a validade da cultura puritana dos estadunidenses e por fim, de toda a cultura ocidental do capitalismo.
Os jovens queriam dar sentido ao valor da liberdade, e ela foi expressa de várias formas, na cultura e nos movimentos jovens. A rebeldia da juventude contra os pais, contra a moral constituída e contra o modelo hipócrita de governo se expressou através do rock and roll, do movimento hippie e dos movimentos estudantis[15], levantando a bandeira da paz e do amor. Perceberam que o valor do patriotismo poderia ser simples retórica, ideologia de manipulação[16], que o papai não sabia tanto assim de tudo e que era preciso se permitir, abrir as mentes e os corações para o mundo, para novas formas de viver, para novas culturas, raças, credos e idéias.
Podemos mesmo afirmar, que o roteiro lança a idéia que os anos 60 pode ser tomado como ponto de partida para as discussões atuais acerca do multiculturalismo, pois foi quando os jovens perceberam que havia todo um mundo a ser descoberto e explorado. Porque a modernidade coloca frente a frente culturas e sociedades diferentes levando-nos a experimentar os efeitos da globalização, que pode sim ser um exercício de alteridade, onde podemos conhecer, interagir e respeitar culturas diferentes.[17]
Por tudo isso, propomos que a estória cinematográfica aqui apresentada, aborda questões muito atuais, pois, uma produção de 2007, época, nos EUA, marcada pela xenofobia, pelos ódios raciais e culturais, principalmente depois dos ataques ao Word Trade Center. Logo, devemos entender que a produção cultural aqui em questão atinge uma dimensão política significativa no contexto histórico de sua produção[18]. O filme chama a população a abrir a mente e o coração para entender o mundo como algo plural e não binário, como quer a ideologia de dominação, que separa a cultura entre boa e ruim, branco e negro, nós e eles, mulheres e homens, homossexuais e heterossexuais etc. O enredo questiona essa forma cultural da ideologia de dominação (pois o discurso do poder) e propõe o multiculturalismo como uma forma de criticar as fronteiras da ideologia dos sistemas de dominação[19].
Dessa forma, acreditamos que o filme baseia-se nas recentes discussões acerca do multiculturalismo e da globalização em voga no mundo como forma de questionamento e como arma para transformação, pois a própria diretora declara qual sua intenção: “Eu realmente quero que os jovens vejam a paixão do filme – que vejam com fervor as características deles mesmos dentro dos movimentos sociais [...] Eu tenho esperança que Across the Universe fale realmente sobre across the cultures... e que qualquer um possa se identificar com as situações e os eventos que acontecem no filme”[20], instigando os jovens a se permitirem olhar o mundo de outra forma. Portanto, entendemos que o filme aborda a juventude como uma força agente de transformações tanto historicamente, quanto na atualidade, lembrando-nos que o amor “utópico” pode tornar-se o elo mais forte da luta, guiando mudanças reais. Seu objetivo é humanizar as ações e promover o exercício da paz no mundo, lembrando-nos que tudo que precisamos é o amor.



REFERÊNCIAS:

AYERBE, Luis Fernando. A revolução cubana. São Paulo: Ed da UNESP, 2004

FENERICK, José Adriano. Sgt. peppers lonely hearts club band: uma colagem de sons e imagens. Revista de história e estudos culturais. Janeiro/Fevereiro/Março de 2008. vol 5; ano V; nº 1.

FRIEDLANDER, Paul. Rock and roll: uma história social. RJ: Record, 2002.

JUNQUEIRA, Mary A. Estados Unidos: a consolidação da nação. São Paulo: Contexto, 2001

KELLNER, Douglas. A cultura da mídia. SP, Bauru: ESDUSC, 2001.

MESQUITA, Luciano Pires. A guerra do pós-guerra: o cinema norte-americano e a guerra do Vietnã. Dissertação (mestrado em História) Universidade Federal Fluminense, 2004.

 MONTIEL, Edgar. El nuevo orden simbólico: la diversidad cultural en la era de la globalización. Disponível em: <http://www.scielo.cl/scielo.php?pid=S0716-58112003001400005&script=sci_arttext>. Acesso em: 15 nov. 2011



[1] FRIEDLANDER, P. Rock and Roll: uma história social. RJ: Record, 2002. p. 119
[2] Ibid. p. 121
[3] “A imprensa americana estava, como a imprensa inglesa, inclinada a voltar suas atenções para algo menos pesado. A personalidade dos Beatleas, seu bom humor e músicas animadas e voltadas para o amor ofereciam uma distração positiva para a tristeza” O contexto pesado que eles desejavam esquecer era dos anos 1950, quando emergiu o rock clássico com sua batida emotiva do rithym and blues e sua carga de rebeldia e sexualidade da música negra. Os Beatleas passavam uma imagem de assexuados, vestidos em ternos da Pierre Cardim, eram requintados e quase não se mexiam no palco, “cheios de uma rebeldia inocente”, prontos para agradar sem maiores riscos o público jovem de classe média dos EUA. Ibid. p.127-128.
[4] Vale ressaltar que a referida música correu o risco de ser censurada; parte do Álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, a “direita troglodita” acusou-a de fazer apologia ao uso das drogas. A canção A day in the life, que está na trilha do filme, chegou a ser censurada, e o referido álbum foi acusado de ser um caricatura onde “os flautistas mágicos [criam uma] promiscuidade, uma epidemia de drogas, consciência de classe para os jovens e um ambiente propício a revolução”. FENERICK, J. A. Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band: uma colagem de sons e imagens. Revista de História e Estudos Culturais. Janeiro/Fevereiro/Março de 2008. vol 5; ano V; nº 1. p. 2. Interessante em relação a isso é que o personagem Max e seus amigos fazem uso de maconha durante a cena e oferecem para Jude, que experimenta pela primeira vez, Lucy, irmã de Max, por sua vez, vai se envolver progressivamente em movimentos tidos como revolucionários.
[5] FRIEDLANDER, P. Rock and Roll... op cit p. 133
[6] A passagem também pode referir-se a influência deste estilo na formação do rock’n roll (já que o personagem Jo Jo tem contato com ela). Seu estilo vocal emocionado e a complexidade harmônica constituí uma das raízes do rock and roll. Seu estilo musical tem raízes na “igreja invisível” do final do período da escravidão e incluía palmas, chamado e resposta, complexidade rítmica, batidas persistentes, improvisação melódica e acompanhamento com percussão, todas essas referências podem ser encontradas no rythim and blues e por fim no próprio rock and roll. Ibid. p.37
[7] A diretora ainda preocupa-se em recriar a cena de um funeral típico de um “herói de guerra”, onde militares carregam o caixão e dobram a bandeira dos EUA entregando-a à mãe do jovem morto. A emoção da música leva o telespectador a sentir que esta caricatura da ideologia masculinista e patriótica, do homem branco yankee como o defensor da pátria e, portanto dono do poder etc; é manipuladora e questionável.Quem faz o questionamento no filme é a jovem Lucy. Sobre isso ver: KELLNER, D. A cultura da mídia. SP, Bauru: ESDUSC, 2001.
[8] O movimento hippie iniciou-se em São Francisco na Califórnia por jovens alunos das universidades e alguns professores, justamente por isso era um movimento liderado pelos jovens ricos e de classe média, que desejavam libertar-se da sociedade dos valores materialistas. Não por acaso o personagem interpretado por Bono do U2, Dr. Robert, sai da Califórnia, à qual ele se refere como casa, para lançar em Nova Iorque o seu livro de nome “I am Walrus” pela mesma editora que promoveria Sadie. O livro seria uma espécie de “propagador da palavra”, se referindo ao estilo de vida alternativo como um tipo de religião. Nesta passagem, ele canta a música I am Walrus e embarca todos os personagens principais à uma viajem em seu ônibus, levando-os ao centro espiritualista do Mr. Kite (Eddie Izzard), embalados pela música Being for the benefit of Mr. Kite os personagens terão uma experiência de alegria, psicodelia e imaginação.
[9] FRIEDLANDER, P. Rock and Roll... op cit. p. 134; 136
[10]  “Uma metamorfose estava acontecendo, transformando a banda de músicos pop otimistas e despreocupados em artistas culturalmente engajados” Ibid,  p. 132
[11] KELLNER, D. A cultura da mídia... op. cit. p.81
[12] A referência freqüente à televisão no filme faz alusão ao desenvolvimento da tecnologia naquela época. O auge da televisão como aparelho doméstico se difundiu nas salas de várias famílias pelo mundo na década de 1960. A mídia televisiva também teve importante papel na direção da opinião pública quanto a Guerra do Vietnã. O governo tentou controlar as imagens durante um tempo, intencionando passar uma sensação de que os EUA obtinham o controle da guerra e que a vitória estava próxima, com o passar do tempo a situação saiu do controle; os discursos contraditórios, os embates entre conservadores e liberais na época pós-assassinato de John Kennedy (2º metade da década de 60), o número grande de baixas e a ação de uma mídia contrária à Guerra, passou a mostrar a face escondida dela, mudando o cenário, e a televisão passou a ser um meio de levantar questionamentos. Sobre isso ver: MESQUITA, L. P. A Guerra do Pós-Guerra: O cinema norte-americano e a guerra do Vietnã. Dissertação (mestrado em História) Universidade Federal Fluminense, 2004. p. 42
[13] KELLNER, D. A Cultura da mídia... op cit. p. 80
[14] A cultura puritana dos Estados Unidos basea-se no homem da fronteira, o homem do velho oeste que expandiu os domínios do país, estendendo também seus valores de “liderança”, “democracia” e “liberdade”. Sobre isso ver: JUNQUEIRA, M. Estados Unidos: a consolidação da Nação. São Paulo: Contexto, 2001. A nova fronteira na época tratava-se da política de pretensões expansionistas em relação a Cuba, e tornou-se crítica quando os Estados Unidos perderam o controle que tinham sobre a região desde o começo do século, depois da Revolução Socialista de 1959. Em 1961, a operação de invasão pela Baía dos Porcos tinha fracassado o que tornou o assunto mais polêmico. Logo, a política da nova fronteira pregava o impedimento do avanço do comunismo e socialismo sobre o mundo, inclusive na parte oriental do globo, ou seja, no Vietnã. Sobre a Revolução Cubana e os atos do EUA em relação a isso ver: AYERBE, L. F. A Revolução Cubana. São Paulo: Ed da UNESP, 2004.
[15] A tomada de consciência dos jovens neste período também é atribuído ao aumento das universidades e da classe universitária, ou seja, a intelectualização da juventude, que levou-os a se lançar em movimentos em prol da transformação social, uma das maiores expressões deste momento foi o “Maio de 68” ocorrido em Paris. Vale ressaltar que os Beatleas também são expressão desta classe estudantil intelectualizada, neste sentido, a obra dos Beatleas é um movimento de vanguarda, pois contradiz a cultura dominante e lidera transformações culturais; ao mesmo tempo que se insere na indústria cultural, devido à massificação e a grande extensão que obteve na época, ou seja, sua “palavra” e seus “sentimentos” arrastaram multidões e despertou mentes e corações ao redor do mundo.
[16] “A ideologia pressupõe que ‘eu’ sou a norma, que todos são como eu, que qualquer coisa diferente ou outra não é normal. Para a ideologia, porém, o ‘eu’, a posição da qual a ideologia fala, é (geralmente) a do branco masculino, ocidental, de classe média ou superior; são posições que vêem raças, classes, grupos e sexos diferentes dos seus como secundários, derivativos, inferiores e subservientes. A ideologia, portanto, diferencia e separa grupos em dominantes/dominados e superiores/inferiores, produzindo hierarquias e classificações que servem aos interesses da força e das elites do poder”. KELLNER, D. A Cultura da mídia... op cit p. 83.
[17] Sobre isso ver: MONTIEL, E. El nuevo orden simbólico: la diversidad cultural en la era de la globalización. Disponível em: http://www.scielo.cl/scielo.php?pid=S071658112003001400005&script=sci_arttext.
[18] MESQUITA, L. P. A Guerra do Pós-Guerra... op. cit. p. 14
[19] KELLNER, D. A Cultura da mídia... op cit. p. 85
[20] http://www.sonypictures.com/movies/acrosstheuniverse/site/  Site oficial do filme. Tradução minha.

Um comentário:

  1. Gostei bastante do texto! Tive a oportunidade de ler algo da bibliografia e assisti ao filme, o que facilita na compreensão! Sempre gostei bastante dessa temática, razão que me levou a escrever um pequeno texto sobre o musical Hair, que retrata o mesmo período! Aliás, falando de Across the universe, o Jo Jo não é o pai do garoto que morre no filme? Já que ele é uma clara alusão ao Hendrix original, que também perde o filho para as guerras urbanas... Gostei da análise que você fez das diversas temáticas inseridas no filme, preconceito, violência, guerra, etc, ficou muito bom e clareou muita coisa! Espero muito ansiosamente pelo seu próximo post Pri!! Continua escrevendo assim que tá bão demais! ;)

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